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sexta-feira, 14 de abril de 2017

XLII - Mist - Ethos de uma Alma Invertida

Vampire by AlexAlexandrov




I- À meia-noite
Como uma bruma,
Em sua janela eu
Adentrei e, a seu
Lado, de pé me coloquei.

No profundo de seu sono,
Emergiu em seu rosto
A figura de um anjo
Repousando em seu leito
Celestial de nuvens brancas.

E eu, de presas agudas
E olhos reluzentes, não
Contente em ver e contemplar
- Ah, Verme profanador! -
Também desejei entrar
Em teu corpo inerte.

Com dois faróis
- Глаза ангела -
Fitou meus olhos,
Púrpura como o rio dos mortos,
E seu corpo estremeceu.

II- Não há, em mim,
Uma só fibra de
Culpa ou remorso,
Pois sou filho da Lua.
Minha luz é fria
Como a de minha
Mãe e meu encanto
Reside em minha luz,
Assim como minha mãe.

III- Pairei sobre o seu corpo,
Admirei o rubor de
Sua face - ангел - e
O suspiro de sua boca
Quando minha língua
Correu-lhe o pescoço.

Os braços abriram-se
Como um Cristo na cruz
E um sorriso desenhou-se
Entre as róseas maçãs.

A vida lhe fluiu em goles
Quando, em um ato de amor,
Lancei-me sobre ti e sobre
A tua pálida garganta.

IV- Num sibilar oriundo de
Minha boca morta e voraz,
- Após minha língua pousar
  Em tua imaculada vergonha-
Tuas coxa se afastaram
E o sangue tomou-lhe
Por inteiro, sem degradês,
O corpo pulsante e vivo.

V- O calor de sua vida
Recebeu, com carinho,
O beijo do Devorador.
Apossei-me de ti e dei-lhe,
Em troca pelo calor de
Tua valiosa vida
O frio da minha morte.

VI- O róseo cobriu-se
De branco quando,
Sem mais forças,
Entregou-me sua vida
E o celeste de seus olhos
Cobriu-se com o manto
Da serenidade do Devorador.



* Imagem http://alexalexandrov.deviantart.com/art/Vampire-264654276 *



sábado, 8 de abril de 2017

XXXV - Necro - Ethos de uma Alma Invertida



Qual a necessidade de
Desenterrar os mortos
Em meu Jardim Selvagem?
O que posso extrair deles,
Se já não há sangue vivo?

Desenterrar os mortos não
Silenciará sua música
De ecos e ladainhas mas,
Ao contrário, a tornará
Ainda mais audível.

Poderia desenterrá-los e
Violar seus corpos pútridos
Por simples prazer ou vendetta.
No entanto, há classe nisso?
Uma atitude vulgar a
Macular meu santuário?

Poderia ornar seus corpos
Com minha teia vermelha
E subjugá-los mas e depois?
Talvez eu beba da canção
Do Coral dos Mortos...



* Imagem http://www.deviantart.com/art/Pharao-s-Grave-596451891 *

quinta-feira, 16 de março de 2017

XXI - Corruptela III - Ethos de uma Alma Invertida




III

Senti o seu corpo
Junto ao meu e
O calor que me
Aquecia era, para mim,
Também uma morte.

Dei-lha um beijo
No pescoço e o
Anjo ainda me
Sorria, alegre.

Seu calor era meu...
Seu corpo, agora mole
E morto, também era meu.
A sua essência era minha...

Fiz, de seu corpo,
A mais bela imagem
Do meu Jardim Selvagem. 
Suas belas asas abertas,
O seu corpo desenhado,
Os cabelos levemente esvoaçantes...
O olhar petrificado, mas vivo e
O sorriso nos lábios...
Em seus pés, a inscrição:

"Aqui jaz o Anjo Belo,
 Neste Jardim Selvagem,
Tomado pelo Corruptor de Anjos"










*Imagem http://img05.deviantart.net/3673/i/2013/103/d/c/les_fleurs_du_mal_version_1_by_ghostsanddecay-d61lse6.jpg *

XXI - Corruptela II - Ethos de uma Alma Invertida






II

O Anjo pousou sobre a
Relva verde com seus
Pés delicados de dedos medianos.

Os seus olhos verdes
Como turmalinas
Faiscavam em alegria,
Quando minhas mãos
Pousaram em seu rosto.

   "Suas mãos são
    Tão frias... tão
    Frias quanto a morte.
    Tem o cheiro da morte."

Ele sorriu, inocente
E com uma doçura
Que somente anjos tem.

"Elas são frias porque
 Preciso de calor de
 Outras pessoas para
 Aquecê-las, meu anjo"
Senti-me torturado
Por minhas palavras

"Então que o meu
 Calor seja seu calor.
 Toma-o através
 Do meu corpo!"
E envolveu-me em
Sua glória e beleza.

"Que a tua essência
Seja magnânima
E perdoe a minha
Essência, pois esta
Há de consumir a tua,
Meu anjo.."





*Imagem http://img05.deviantart.net/3673/i/2013/103/d/c/les_fleurs_du_mal_version_1_by_ghostsanddecay-d61lse6.jpg *

XXI - Corruptela I - Ethos de uma Alma Invertida




I

As Duas Luas,
Uma negra e uma branca,
Reluziam em puro esplendor
Imersas no céu púrpura.

Meu Jardim Selvagem,
Permeado de Flores do Mal
E pleno de túmulos, onde
Os Mortos foram enterrados
E sua canção abafada

O mausoléu ornado em 
Filigranas, onde fiz meu leito,
Exalava o perfume da melancolia
Em tons de azul cintilante denso.

Adentrei a capela barroca,
Onde milhares de santos de
Olhares tristes e piedosos,
Miravam-me derramando
A sua misericórdia sobre mim.

No altar central,
São Miguel Arcanjo
Pousava com as
Asas abertas, os cachos
Castanhos ornados por
Um halo dourado,
Sua armadura reluzente,
Com uma imensa cruz rosa
Sobre o peito e sua
Espada brandida acima
De sua cabeça.

Expus meu sagrado
Coração não-vivo,
Como fizera o Cristo,
E lágrimas vermelhas
Tingiram a minhas faces.

Ao voltar para meu
Jardim, vi que o céu
Púrpura se abria e
Dele descia um anjo.
Seus cabelos longos
Adornavam sua face
Portadora de um belo sorriso.



*Imagem http://img05.deviantart.net/3673/i/2013/103/d/c/les_fleurs_du_mal_version_1_by_ghostsanddecay-d61lse6.jpg *

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Vênus Escura

Escavei meu Jardim Selvagem.
Abri mil túmulos - inclusive o meu-
Simplesmente para inalar o passado
E constatar que nada daquilo me era
Mais tão familiar como fora uma vez.

A estrela matutina brilhou no céu
Desanuviado e ofuscou as duas luas
Tão amantes e amadas por mim.
Algo estalou em minha mente e
Meus sentidos e minha 2ª pálpebra cerrou-se.

Ouvi um canto silencioso que parecia
Emergir das águas frias e mortas.
Um perfume selvagem como o meu
Jardim despertou-me e diante de
Meus olhos resplandecia uma Vênus Escura,
Nascida do fogo que crepitou sem
Combustível aparente a alimentá-lo.

Ela gargalhou docemente e dançou
Ao som de uma música que só ela ouvia.
"Venha! Venha! O fogo lhe chama, não ouves?"

Lancei-me à ela e àquele fogo alaranjado.
Queimei e cai ao chão, abraçado aos
Mortos  do meu Jardim Selvagem.
Beijei a todos eles e a seus ossos
Impregnados pelo tempo que morreu.

Ali deixei-me ficar, aos olhos da Vênus Escura
Que perpetuou sua dança ofídica e fez ressoar
Sua gargalhada indubitavelmente misteriosa.


* Imagem retirada de http://www.gutenberg.org/files/16477/16477-h/300dpi/image27.jpg *

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Observar



Há, na arte da observação, um tom de sadismo que, cedo ou tarde, será descoberto. Há no observador, uma centelha de dominação, pois ele descobre o que outrem tenta ocultar e, se tenta ocultar, provavelmente é algo que o incomoda, o torna fraco ou o constrange.

Após tanto tempo, estou cada vez mais certo de que sou um observador nato. Sempre descubro o que desejo. Também há o fato de que todo observador desenvolvido é também persuasivo. Mas o ponto mais interessante é que todo observador transmite segurança às pessoas. Não sei, ainda, se é através dos olhos ou da paciência parte inata e parte esmerilhada pelo tempo. Mas por que diabos estou falando disso? Simples, mortais interessantes e desinteressantes deste imenso pequeno mundo: porque eu quero deixar claro que não há bondade em mim. Há interesse e tão somente interesse. Interesse em sua vida, interesse no que virá de útil em seus lamentos, interesse no que lágrimas ou sorrisos me trarão... interesses mil.

Toda e qualquer palavra dita e escrita, todo olhar e sorriso, todo perdão e gesto... tudo isso tem algo oculto. Nada é de graça nesta vida. Nem mesmo a própria vida. Ainda não compreendem, não é? Pois bem, inverterei os papéis. Quando você demonstra fragilidade é porque busca amparo, ou seja, você se expôs por haver interesse em ser consolado e, invariavelmente, afagado (física ou emocionalmente). Agora compreende, não é?

Não leve a mal estas linhas. Ou leve... sinceramente não me importo. Só quis deixar claro que, como um jovem filho do milênio, vi tanto que julgo ter encontrado uma das verdades universais. Já vivi tanto que poderia ludibriar deus e o diabo juntos. De minha parte sempre há um interesse, ao menos: seu sangue. Geralmente eu me interesso pelo seu rosto, talvez por sua alma e, caso eu passe a amar ambos, certamente terei interesse em despir seu corpo e sua alma.

Como bom observador, certamente gostaria de despir seu corpo e sua alma. Como bon voyeur, gostaria de ver ambos. Como todo sádico, talvez até infringir-lhes alguma dor para que precisem ainda mais de mim. Com todo o poder persuasivo que tenho, carregue a certeza de que farei tudo isso se desejar... e de que você obedecerá de bom grado!



Maxim

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Les Fleurs du Mal

Após longa ausência,
Reergui-me, escavando
A terra acima de mim,
Abrindo espaço por
Entre sementes, vermes
E outros tantos corpos.

Tomei meus pulmões com
O ar morto e gritei,
Tornando-o tão vivo quanto
Eu mesmo estava. De tal
Maneira, removi o pó de
Meu corpo recém despertado.

Caminhei pela terra pútrida
E silenciosa do descanso eterno,
Seguindo o rufar de seu coração,
Penetrado pelo seu cheiro e
Inundado por sua voz suave.

Quando, ao longe, vi o reluzir
De seus olhos tão cheios de vida,
Senti-me como um dos Reis Magos
Guiados pela Estrela D'Alva.
Ao mesmo tempo, vi que Satã
Caminhava ao meu lado, com
Um sorriso de astúcia e
Soprando em meus ouvidos.

"Não é necessário tentar-me,
Príncipe Caído! Eu sou o próprio
Pecado e minha alma seria
Sua...se eu tivesse uma."

II

Pois eu vi que o tempo passara
E que tudo havia mudado muito.
O azul tornara-se mais azul e
O meu Jardim Selvagem havia
Aberto espaço para tantas
Flores do Mal... mas uma
Delas era mais notória,
Mais vistosa e mais perfumada.

Embriaguei-me com o seu perfume
E, hipnotizado, afaguei-a...
Perfurando minha carne com
Seus espinhos negros e vivos.

Não menos do que imediatamente,
Seu veneno penetrou meu corpo
Não-Morto e fê-lo padecer em dor.
Não menos do que imediatamente,
O sangue vazou-me pelos olhos.
Não menos do que repentinamente,
O sangue me escorreu pelos poros.

Apenas fechei os olhos e minha
Mente secular fervilhava, bem
Como o sangue roubado de de
Tantas vidas efêmeras.

Ouvi a risada retumbante em
Um dos túmulos e o Coral dos Mortos
Começou a cantar sua canção
De ódio, amor e lamúrias.
Minha boca balbuciou em
Um sussurro quase inaudível
"Não...parem de cantar! Silêncio!
 Deixem-me ouvir o nada!"

O Corvo de Poe escarneceu
"Nevermore!"

* Imagem retirada de http://foto-graphier-les.deviantart.com/art/les-fleurs-du-mal-201950842 *

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Queda do Anjo - Capítulo VIII - O Despertar da Besta


"Sodoma desperta no horizonte
  Canaã reluz esplendorosa ao longe
  Deuses antigos revelam-se, então,
  Esmagando o poderoso Javé contra o chão."


Se os gregos pudessem ver o céu dos trópicos naquela noite, diriam que Ártemis se mostrava no auge de seu poder e beleza. Os pequenos insetos caminhavam e saltavam velozes sobre a grama úmida, com vários e miúdos vaga-lumes cintilando sua luz natural como se fossem pequenas estrelas a vagar entre as efêmeras vidas da floresta. Aquela noite apresentava um aroma diferente... sombrio mas muito sensual. Poucos archotes estavam acesos pois a noite estava clara e as pessoas ainda transitavam pelo interior da colônia. No mosteiro, os padres estavam rezando como era habitual naquela hora. O "Pai Nosso" ecoava repetidamente em latim como um mantra quase atormentador.

Logo que despertei, movi-me para a floresta próxima ao mosteiro, perscrutando os sons da mata em busca de Ángel. Não me foi nada trabalhoso encontrá-lo, mas de certa forma surpreendi-me com a imagem que revelou-se diante de meus olhos imortais: Ángel montado em uma jovem como se fossem animais. Ele a penetrava por trás e ela urrava. Seu rosto e seu corpo estavam embebidos em suor, como rostos igualmente suados exprimindo um tipo de êxtase. (Antes que eu prossiga, devo dizer que esta situação repetiu-se por alguns dias e eu o observava de longe, sem ser notado). Ali mesmo se divertiram e ali mesmo Ángel deixou a garota e caminhou para a floresta quando eu o chamei por telepatia. Ele nem ao menos preocupou-se em por suas vestes. Veio  para mim ainda nu e com o cheiro dos fluidos impregnado em seu corpo.

O seu caminhar havia mudado, assim como o seu olhar e o seu falar. O caminhar era confiante... quase felino, o seu olhar também tinha uma centelha de luxúria em meio à inocência ainda viva e seu jeito de falar havia se tornado quase poético, pois sua voz estava adocicada e arrastada. Uma vez mais eu havia feito um trabalho magnífico, ao que me parecia. Ángel havia perdido parte da inocência e assumido uma postura, por vezes, selvagem - talvez uma postura mais condizente com a sua cultura indígena ou, ainda, a parte humana de sua alma havia manifestado-se.

- Meu querido, por que não cobre o seu corpo?
- A nudez é pecado?
- Não... a nudez somente revela seu estado natural, como Deus o fez.
- Então deixe-me viver conforme a minha vontade, meu anjo! - olhou-me com desafio.
- Poupe-me deste olhar, Ángel! Não é a mim que você deve direcionar este olhar e esta raiva...
- Isto será direcionado a quem merecer!
- Esqueça isso! Não importa. Eu vi você e aquela garota...
- Foi agradável e novamente eu senti aquilo...aquilo como quando você me mostrou O Sétimo Pecado. Mas o que tem este fato? - uma nuvem de curiosidade e orgulho passou sobre ele.
- Só estou vendo sua libertação...você não está mais preso à esta farsa.
- Não mais e estou pagando o preço. - Ele virou-se e suas costas mostravam as marcas de açoite.
- Eles não podem julgá-lo! Faça justiça, meu querido! Por você, pelo seu povo e pelos deuses antigos que foram suprimidos pelos falsos sacerdotes de Deus. Um deus amoroso não imporia castigos físicos. Não condena sua criação ao tormento. Faça justiça!
- Como farei isso?
- Reze aos deuses... os deuses de sua mãe e seus avós e eles lhe dirão como fazer justiça.

Abri meus braços e Ángel abrigou-se neles como um filho que procura força e amparo nos braços de um pai. Alisei-lhe os cachos e fiz minhas mãos escorregarem em suas costas feridas. Um gemido de dor acariciou meus ouvidos e as lágrimas lhe molharam o rosto moreno. Minhas unhas cravaram-lhe as nádegas e minhas presas o pescoço, provendo-me o alimento tão necessário e tão saboroso. Seu corpo desfaleceu, mas a sua vida não se esvaiu pois não era da minha vontade.

De olhos fechados, desacordado no chão, os lábios sussurravam "Quetzalcoatl... fogo... vingança..."

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Legião

Ah, eu sei que estendi as
Minhas mãos até o seu
Corpo em repouso sagrado!
Eu o profanei propositadamente...
Pelo simples prazer de fazê-lo.

Este sou eu. Eu sou o
Invasor de almas, o
Devorador de Anjos,
Sem-Pecado, Morte Vermelha
E o que mais eu almejar...
E eu almejei invadir suas
Roupas e assim eu fiz!

Visivelmente você também
Adorou, pois suas pernas
Retesaram-se e um suspiro
Curto e profundo vazou
Por sua boca enquanto
Seu corpo, seu santo corpo, tremeu.

Eu senti o que eu gostaria
De sentir e eu vi o que
Eu gostaria de ver...
Ah, lisa pele lisa! Ah,
O veludo criado por Deus!

Eu sou aquele de muitos
Nomes, muitas faces e alcunhas.
Certos estejam de que, como
Uma rajada de vento fantasmagórico,
Adentrarei casa, corações,
Sonhos, desejos e corpos.

Quando isto se suceder,
Amar-me-ão ou odiar-me-ão,
Mas minha voz e meus dentes
Estarão eternamente
Cravados em vossas almas.

Pois eu sou o máximo...
Para o bem e para o mal.
Quando desejar, basta
Chamar-me por um de meus
Tantos nomes e eu lá estarei.
No entanto, saiba que, quando
Meu nome for chamado,

O preço deve ser pago...


* Imagem retirada de http://www.deviantart.com/art/how-to-destroy-angels-armand-5773341 *

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estertor


Anseio atravessar seu
Frágil corpo com
A minha pontiaguda lança,
Somente para ver
Até onde vai a sua
Idolatria por mim.

Seria satisfatório ver
O sangue escorrer e
Pintar seu corpo com
As mais belas cores.

Anseio beijar seu rosto
Assim como Judas fez,
Somente para ver se
Reagiria serenamente e
Surpreso como o Cristo
Ou se sacaria a espada
Para fender-me a garganta
Como fez o valente Pedro.

Anseio que veja-me
Como realmente sou,
Somente para saber
Se seus olhos se
Ofuscariam diante de
Todo o meu esplendor.

Gostaria que o calor da
Raiva corasse suas bochechas
E o ódio lhe tomasse por inteiro,
Somente para desatar-me uma
Longa e sonora gargalhada.

Talvez um dia eu
Lhe beba da garganta,
Somente para atestar
Se sua beleza é eterna.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Duas Luas

Abri meus olhos e percebi
Que no céu brilhavam duas
Luas opostas, que tocavam-se
As costas curvilíneas.
Amavam-se sem pudores.

Percebi que a loucura
Havia retornado a mim
E o meu espírito condenado
Novamente mostrava-se inquieto.
Creio que mais séculos passaram-se
Sem que eu me desse conta deste tempo.

Toquei meu rosto, minha boca,
Meu corpo, senti meu coração pulsar.
Minha pele ainda branca e gelada,
Minha voz ainda suave e firme.
Fechei meus olhos e olhei para
Mim mesmo, com cautela e medo.

Na minha cabeça, reverberavam sons
De tempos imemoriais e turbulentos.
Segui o conselho do mestre e mantive
A minha mente ocupada e, no entanto,
Ainda sim a loucura retornou repentinamente.

Quando toquei meus lábios e senti
Meu coração não-vivo pulsar,
Percebi que sentia amor...talvez
Mais amor do que quando nasci na noite.
Certamente, mais amor do que quando
Julguei que havia chegado ao ápice
Da capacidade de sentir algo tão nobre.

Desprendi-me do corpo e percorri o
Jardim Selvagem, de belas flores e
Árvores e túmulos em cimento tosco
Os mortos continuavam enterrados...

Não obstante, aquele mausoléu de
Mármore escuro ornado por filigranas mil
E envolvido por trepadeiras e flores,
Encontrava-se escancarado.
Daquela porta emanava uma escuridão fria,
Donde ainda reluzia uma pequena chama
Que tremia pelo soprar do vento cortante.

Depois de tantos séculos, eu tremi!
No céu, ainda brilhavam aquelas duas luas
Opostas, amando-se e irrigando o jardim com
Sua luz cianótica ora quente, ora fria.

Aquela luz, de algum modo, fez meu coração
Pulsar como se eu estivesse com os dentes
Cravados em algum mortal escolhido por mim.

Aquela luz, daquelas duas luas opostas que
Amavam-se sem pudor, me fez cair de joelhos
E mergulhar ainda mais fundo: enterrei-me
Em meu próprio jardim, naquele mausoléu
Guardado por duas faces de mim mesmo.

Com um pouco de dor,
Um pouco de amor,
Alguma dose de pudor,
Um toque de horror,
Enterrei-me sem temor e
Estejam certos, anjos e mortais,
De que eu logo regressarei...
Quem sabe mudado, mas certo de
Que amar-me-ão ainda mais!

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Coral do Mortos

Jogado aqui, neste chão empoeirado, sob a Santa Cruz
Que lança sua sombra sobre o altar com um velho cálice
Igualmente santo, durmo como o morto-vivo que sou.

Em mim ecoam vozes, luzes e memórias de todos que
Amei durante a vida e após nascer para a morte.
Seus rostos, corpos descobertos e almas desveladas...
Tantos anjos de túnicas esfarrapadas, asas ceifadas, olhos
Tomados de luxúria e almas inundadas de penumbra.

As rosas crescem e emaranham meu corpo inerte,
Cuja carne branca é perfurada por espinhos.
Eu ouço os mortos cantando e dançando...
Chamando meu nome e o carmesim escurece.
Eu ouço o coral dos mortos cantando
Sua canção fúnebre tomada de ódio e amor.

Eu ouço o coral dos mortos entoando
Sua declaração de amor por mim.
Eu ouço a voz de todos os anjos
Trovejando contra o demônio que
Os corrompeu e que os devorou...
O belo demônio que lhes apresentou
As mais belas sombra da alma.

Eu ouço o coral dos mortos,
Com as vozes agoniadas,
Cantando sua canção de ódio e amor

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Gracioso

Como uma névoa,
Entrei em seu quarto.
Abriste teus olhos e
Olhou-me assustado.

Seu rosto junto ao meu
-Uma respiração ofegante-
Eu sussurrei em seu ouvido
E, estarrecido, você gemeu.

Semblante de carmesim corado
E olhos glaciais arregalados,
Em silêncio indagaram.

- Quem é você?
- Eu sou o diabo
- Você veio levar-me ao inferno?
- Se este for o seu desejo, levo-te com minhas asas de morcego.
- Afasta-te de mim, espírito malfazejo!
- Tolo! Vim apenas roubar-lhe um beijo.

Tão levemente agarrei seu rosto
E violentamente, morde-lhe o pescoço.
Tu, tão brevemente, lutou e relutou.
Bebi de seu carmesim, trouxe-lhe
O dom negro. Este era o meu desejo.

Acordaste ainda mais branco,
-Vermelhos como uma rosa -
Os lábios ainda mais corados

Tornou-se tão mais belo,
Amando-em e odiando-me,
És assim, ainda mais gracioso

* Imagem retirada de http://ulysses0302.deviantart.com/art/Gott-ist-tot-175073274 *


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Colecionador

Tão logo sua boca se abriu
E entoou aquela melodia,
Senti minha alma pulsar.

Quando seus olhos, diante
De meu corpo imóvel,
Reluziram, a estátua
Ganhou vida e vontade.

Sua pequena mão tocou
O meu peito frio e um
Leve suspiro animado
Escapou por entre meus dentes.

Quando você se aproximou,
Farejei o sangue minando
De pequenos sulcos em ti
E minha boca se abriu.O

Quando o meu despertar
Tornou-se completo,
Eu havia bebido tudo
O que há de mais doce
Em ti: a sua tristeza profunda.

Quando deixei-te imóvel
Diante de meu corpo imortal
E de seus olhos brotaram lágrimas,
Minha boca abriu-se em um
Enorme sorriso e minh'alma regozijou
"Você já pertence a mim!"

* Imagem retirada de http://lalasaurio.deviantart.com/art/tied-311609832 *

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Queda do Anjo - Capítulo VII - O Sétimo Pecado

"Quando o fruto foi mordido,
 Revelou-se o que estava escondido.
 O solo tornou-se úmido

 E a semente foi derramada...
 Libertou-se o que estava contido."

- A bíblia é uma farsa. Deus pode ser uma farsa, mas isto é uma questão metafísica. Cá estou eu, um anjo, e lhe pergunto se eu pareço ser irreal ou imaginário. Quanto ao pecado... o que você entende por pecado?
- Gula, avareza, indolência, ira... luxúria...
- Ah, os sete pecados... e você os vê ao seu redor?
- Bem, padres banqueteiam, recebem doações mas não fazem doações, nos colocam para trabalhar muito e não fazem nada, nos açoitam por nada...
- Pois agora vê que não são santos? Crê que seriam burros o suficiente para pecar, sabendo o que os espera pós morte? - Os olhos de Ángel iluminaram-se, como se um lampejo de sabedoria lhe tivesse ocorrido. Diria que foi o mesmo brilho que iluminou os olhos de Eva, quando esta viu a maçã.
- Se eles pecam, o inferno não existe ou não existe o próprio pecado... - ele levou as mãos às têmporas e apertou os cabelos.
- Você está começando a entender as coisas...
- Mas ainda sim, a luxúria é a mais recriminada. Eles nos dizem para sempre cobrir as vergonhas e nunca nos tocar, pois isto é a chave para que o demônio nos possua.
- "Cobrir as vergonhas"?
- Sim. Nunca devemos nos despir na frente de ninguém. e nunca devemos ter pensamentos lascivos.
- Ángel, meu querido, dispa-se de suas vestes... de todas elas.

Ele era tão manipulável... tão manipulável quanto uma marionete ou como o barro com que O Arquiteto fez o homem. Percebem como eu o levei da forma como quis? Ao mesmo tempo, ele passava a questionar certas coisas sem que eu sugestionasse.
Sem relutar, ele tirou as roupas - eu conquistara sua confiança - e novamente me vi estático e extasiado. O corpo muito jovem se mostrava... "recortado", com a silhueta dos músculos tornando seu porte atlético mas bem longe de ser fisicultural. O peito se mostrava largo e os braços morenos e esguios eram longos. As pernas grossas exibiam belas coxas.

- Meu querido, olhe para si próprio e veja a sua própria beleza! A perfeição de seu corpo por inteiro. Diga-me: onde está o pecado na natureza? Qual o pecado da nudez? Por que Deus condenaria algo que ele mesmo fez?
- Eu... não tenho... não sei essa resposta...
- Toque no que há entre suas pernas, Ángel! Viva a sensação que tomará seu corpo e não se preocupe com nada!

Ángel escorregou a mão pela barriga, tateando o umbigo como se estivesse em um terreno desconhecido. Eu escutava seus dedos roçando os pelos lisos e curtos, enquanto algo despertava lentamente. O sangue começou a correr velozmente em suas artérias e o som do fluido vermelho preenchendo os corpos cavernosos me fez ter a sensação de arrepio.

- O que sentes, meu querido?
- É... bom... talvez uma forma de ter um pedaço do paraíso bem aqui.
- Então? Isto lhe parece pecaminoso? Algo tão bom pode ser pecado?
- Não creio mais nisso... - seus olhos estavam fechados e sua voz arrastada - algo tão bom só pode ser feito pelas mãos de Deus. - Ele mordeu os lábios com tanta força, que senti o cheiro de seu sangue brotando por entre as microfendas de seus lábios.

Ele simplesmente não disse nada. Deitei-me sobre ele, fazendo com que meus lábios tocassem delicadamente cada zona sensível em seu corpo. Minha mão roçava seus pelos e era aquecida pelo calor daquilo que havia nela. Ele sequer percebeu o quanto meu corpo era frio ou o quanto o contraste de nossas peles era bonito. Se percebeu, nada fez. Meus dentes lhe perfuraram novamente o pescoço, fazendo o sangue preencher minha boca. mas isso não me era o suficiente e também bebi de seu peito e de suas coxas. O mestiço tão somente gemia e eu o sentia pulsar intensamente, até que senti o cheiro de seu fluido derramando sobre sua barriga.

- Tudo isto que você sentiu, meu querido, faz parte de sua natureza. Se faz parte da natureza, foi criado por Deus e se foi criado por Deus, certamente não é pecado. O prazer foi dito como pecado tão somente pela conveniência, já que não é interessante para A Igreja dividir seus bens com as famílias de seus padres.
- Mas isso não os impede de fornicar, certo?
- Correto! Observe como o padre Raul olha e toca certos jovens! Ángel, meu querido Ángel, desfrute o prazer e refestele-se com comida e vinho. Aprecie o ócio, sinta a força da violência... tudo isso faz parte da humanidade. No entanto, devo alertá-lo: usufrua com parcimônia e o prazer, mais especificamente, deve ser explorado.

- Sei que é o momento de sua partida, mas peço que amanhã volte para mim. - Ainda despido e com a barriga úmida, Ángel deu-me um beijo e sorriu.
-Eu voltarei para lhe ensinar mais. - Parti, saltando para as nuvens densas. - Mas voltarei quando jugar necessário...


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A Queda do Anjo - Capítulo VI - A Língua da Serpente

"A Serpente surgiu sedenta
  E sua língua falou aos homens, 
 Seu veneno tornou a alma moribunda 
  E a mente tornou-se astuta."

A passividade e a doçura de Angel me provocaram sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que eu amava, eu odiava ambas as expressões de sua personalidade e isto me motivava tanto quanto a sua beleza. Colocar minhas mãos em sua alma e em sua mente, para deformá-las, seria algo extremamente prazeroso. Então lá estava eu, um anjo do Senhor, revelando mistérios divinos a um mortal escolhido tão somente por sua beleza. Sob certo aspecto, eu era como o anjo portador da luz... como Prometeu que roubou o fogo do olimpo: eu falava contra os deuses. Mais uma noite era contada e mais uma vez o céu apresentava a lua e as estrelas por entre as nuvens densas. Uma vez mais eu me apresentava ao jovem mestiço, com nossos belos olhos entreolhando-se e os de Ángel pareceram-me marejados.

- Por que estes olhos anuviados, meu querido?
- Você... a bíblia... os padres... é tudo uma farsa?
- Acaso lhe pareço uma farsa?
- Não, não você mas... a bíblia ser uma farsa?
- É um livro como qualquer outro, meu querido. Homem algum conhece os planos de Deus!
- Então como... como ela se tornou verdade? Como aqueles homens, que se dizem santos, aceitam esta mentira?
- Não há homem que seja santo. Todos estão sujeitos às mãos de Deus e às garras do Diabo.
- Mas como...
- Ángel, meu querido, nunca atentou-se para o modo como eles lhe olham e como eles o castigam tão somente por ser fruto da união entre dominadores e dominados?
- Minha mãe fornicou e eu sou o fruto deste pecado. Mereço estas punições!
- Como culpar uma alma por um crime que ela não cometeu? Acha mesmo que Deus seria injusto assim?
- Bem, se ele foi capaz de punir toda a humanidade por causa de Adão e Eva... - Ah, o primeiro sinal da acidez, da amargura... da blasfêmia! 
- Prossiga!
- Começo a crer que Ele próprio semeou o fruto do pecado com o intuito de nos tentar. Ele próprio foi a Serpente... é como incitar o pecado para depois punir os pecadores! É algo... ardiloso...
- Você está começando a enxergar. A bíblia é uma farsa que se tornou verdade às custas de muitas vidas e sofrimento. A religião se tornou maior do que o próprio Deus e isto é inaceitável! Os mortais, perversos como são, perverteram as palavras de Deus ao longo do tempo. Realmente crê que seu povo deve ser esmagado e que seus deuses realmente são falsos deuses, como pregam estes homens vis?

Mais uma vez os olhos de Ángel se mostraram incrédulos e uma luz incidiu sobre eles, como se algo surreal o atingisse. Eu sentia, dentro de mim, que aquele garoto começava a despertar a besta que dorme em cada indivíduo. Seus pensamentos estavam caóticos e uma onda de inconformismo lhe inundava o interior. Inconformismo com aquilo que ele próprio acabara de dizer... com aquela blasfêmia asquerosa e toda aquela subversividade tal como a que Lúcifer desafiou O Arquiteto.

- Se a bíblia é uma farsa, o pecado e o próprio Deus também é?


sábado, 4 de janeiro de 2014

Flor

Uma rosa flor, tão bela
Desabrocha em ti delicadamente
Pétalas aveludadas, tão macias,
De um tom único, adornado pela neve.

Estrelas cintilantes por sobre
A relva esmeralda fresca,
Donde desabrocha a flor rosa
Salpicada pelo orvalho cristalino

Bela flor de inocência,
Belo botão tão róseo,
Inebriante perfume inalado,
Tão frágil botão intocado...

-Castitatis lilium-

O belo de seu interior
Por mim será tomado
E o néctar vermelho
De ti será sugado.

* Imagem retirada de http://www.deviantart.com/art/flower-108182243 *

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Reverie

Posto que esta noite,
Como uma névoa densa,
Invadirei seu quarto
Silenciosa e calmamente,
Digo-lhe que se prepare!

Estenderei minhas mãos
Sobre o seu corpo imóvel,
Tão bem embalado pelo
Amável e necessário Hipnos.

Não, não abra estes belos
Olhos carinhosos e tímidos.
Mantenha-os firmemente cerrados
E sinta a minha boca pairar
Sobre os seus lábios tenros.

Seu peito descoberto só faz
Transparecer ainda mais o
Rufar retumbante de seu
Coração acelerado e ansioso.

Um fio de sangue escorre
De meu pulso gelado e
Uma gota do meu sangue
Vivo e carmesim, toca
A sua boca trêmula.

A névoa torna-se úmida...
Tão úmida quanto a roupa
De baixo, quanto o seu corpo...
Este é o meu beijo,
Este é o meu êxtase,
Este é o meu vício,
Este sou eu, submetendo-lhe
A mim e aos meus desejos.
Este sou eu, atando você a mim...


*Imagem retirada de http://leejun35.deviantart.com/art/Vampire-299951629 *

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Bruxulear da Mente IV

Desapareçam da minha frente
Até que possam testemunhar,
Sem maus sentimentos,
O esplendor do meu rosto
E o reluzir da minha alma.

Venham a mim, tão somente,
Aqueles que desejam
Compartilhar do carmesim
Do sangue recém bebido,
Que traz-me à vida.

Que olhem-me nos olhos
Somente aqueles que
Possam ver o faiscar
De uma criatura milenar.

Que falem comigo somente
Aqueles apreciadores do
Meu timbre único e macio.

Exterminados, serão, aqueles contra mim estão.