quinta-feira, 4 de maio de 2017

XLVII - Nevermore - Ethos de uma Alma Invertida

Dead Angel by ariin



Lancei maldições ao
Anjo (antes imaculado)
Vulgar de asas encardidas,
Cujo sorriso emanava uma
Luz fraca e bruxuleante...
Luz hipnótica e torpe.

Suas asas foram queimadas
E sua aura divina se apagou,
Revelando sua natureza enganadora,
Tal como a luz da lâmpada é não-natural.

Seu rosto, como pedra, ainda
Preserva o sorriso ludibriador
Como se ainda quisera
Arrebatar o mundo inteiro.

Convoquei os vermes da
Terra para que devorassem
A sua tenra carne jovem e,
Para que nada lhe restasse.
Conjurei os vermes astrais
Para que devorassem a sua alma.

Vi sua carne esburacada,
Vi sua alma igualmente perfurada,
Não te ergas mais!




* Imagem http://ariin.deviantart.com/art/Dead-Angel-19381584 *

quarta-feira, 3 de maio de 2017

XLVI - Morte Branca - Ethos de uma Alma Invertida




É-me mais interessante
Enterrar seu corpo sob
A grossa camada de
Gelo aos pés da bela
Catedral de São Basílio,
Pois não há, para ti,
Lugar em meu Jardim.

O branco do gelo
É o branco de sua pele,
O frio do gelo 
É o frio de sua alma.

Que os vermes façam
O trabalho de devorar
O seu belo corpo e
Fazê-lo igual a tua alma.

Se nem mesmo os
Vermes se dispuserem
A fazer o seu trabalho,
Então que seu corpo
Permaneça intacto sob
O branco manto de neve,
Um macio esquife.
Branco leito de repouso eterno...
Uma ode à sua feia beleza!





* Imagem http://www.beachfrontbroll.com/2014/02/SnowSpecialEffect.html *






terça-feira, 2 de maio de 2017

XLV - Vade - Ethos de uma Alma Invertida

white lie by len-yan



Não mais me interessam
Seus corpos - antes palatáveis,
Antes belos e desejáveis -
Putrefatos e cianóticos.

Não mais me apetecem
Suas conversas embebidas
Em auto-piedade e
Falsa sabedoria.

Não mais me interessam
Seus pelos louros, negros ou ruivos.
Tão pouco os dedos finos ou roliços.

Não mais me interessa a
Carência eloquente e teatral
De seus lábios ferozes.

Não mais me interessam
Suas vergonhas, planos,
Anseios, desamores e taras.

Em mim brotou uma
Raiva derivada dos parasitas
E, façam-me um favor:
Atendam, ao menos uma vez,
Ao desejo desta criatura sincera e
Dispam-se, masturbem-se
E se atirem aos infernos!



* Imagem http://www.deviantart.com/art/white-lie-677984045 *

segunda-feira, 17 de abril de 2017

XLIV - Hara Kiri II - Ethos de uma Alma Invertida




"Quando matei a ti,
  Matei a mim mesmo..."
                        Hara Kiri  - Animagrafia


O meu sangue, derramado ao chão,
Negou-se a misturar-se ao seu.
Meu corpo, jogado e ferido, ergueu-se
Vazio, seco, indolente e ali ao
Lado jazia teu corpo...
- Antes belo e agora nu -

Bebi teu sangue podre e,
Aos mortos de meu Jardim
Agreguei teu corpo e tua
Alma igualmente necrosados,
Ali derramei novamente
Lágrimas e, desta vez,
Foram plenas de alívio
E desprendimento.

O verme que habitava
Minha carne morreu.
Lancei-me à pira,
Embebido em meu sangue.

Novamente, matei a mim mesmo.



* Imagem retirada de http://mystiklsushi.deviantart.com/art/Honor-165509143 *

domingo, 16 de abril de 2017

XLIII - Pequena Flor - Ethos de uma Alma Invertida




Pequena Flor por desabrochar
Serei eu, quiçá, o abençoado
A sentir o perfume ainda por exalar?

Pequena Flor, de beleza discutível,
Certo de que tens teus espinhos,
Ainda sim seríeis aprazível.

Pequena Flor, que brotou do
Frio chão, quando lagartos
Tocam tuas folhas e anseiam
Devorar teu fino caule,
Poderás, tu, dizer veemente "não"?

Pequena Flor, flor do mundo,
Enquanto despertas de teu
Sono profundo, despertas
Em algum rincão, amores
Gregos... amores de Platão?

Pequena Flor, flor da cidade,
A mim tu não importas
Nem um pouco.
Este papo louco foi
Somente especulação...
Somente curiosidade



* Imagem http://www.deviantart.com/art/La-Magie-de-l-Automne-V-183466779 *

sexta-feira, 14 de abril de 2017

XLII - Mist - Ethos de uma Alma Invertida

Vampire by AlexAlexandrov




I- À meia-noite
Como uma bruma,
Em sua janela eu
Adentrei e, a seu
Lado, de pé me coloquei.

No profundo de seu sono,
Emergiu em seu rosto
A figura de um anjo
Repousando em seu leito
Celestial de nuvens brancas.

E eu, de presas agudas
E olhos reluzentes, não
Contente em ver e contemplar
- Ah, Verme profanador! -
Também desejei entrar
Em teu corpo inerte.

Com dois faróis
- Глаза ангела -
Fitou meus olhos,
Púrpura como o rio dos mortos,
E seu corpo estremeceu.

II- Não há, em mim,
Uma só fibra de
Culpa ou remorso,
Pois sou filho da Lua.
Minha luz é fria
Como a de minha
Mãe e meu encanto
Reside em minha luz,
Assim como minha mãe.

III- Pairei sobre o seu corpo,
Admirei o rubor de
Sua face - ангел - e
O suspiro de sua boca
Quando minha língua
Correu-lhe o pescoço.

Os braços abriram-se
Como um Cristo na cruz
E um sorriso desenhou-se
Entre as róseas maçãs.

A vida lhe fluiu em goles
Quando, em um ato de amor,
Lancei-me sobre ti e sobre
A tua pálida garganta.

IV- Num sibilar oriundo de
Minha boca morta e voraz,
- Após minha língua pousar
  Em tua imaculada vergonha-
Tuas coxa se afastaram
E o sangue tomou-lhe
Por inteiro, sem degradês,
O corpo pulsante e vivo.

V- O calor de sua vida
Recebeu, com carinho,
O beijo do Devorador.
Apossei-me de ti e dei-lhe,
Em troca pelo calor de
Tua valiosa vida
O frio da minha morte.

VI- O róseo cobriu-se
De branco quando,
Sem mais forças,
Entregou-me sua vida
E o celeste de seus olhos
Cobriu-se com o manto
Da serenidade do Devorador.



* Imagem http://alexalexandrov.deviantart.com/art/Vampire-264654276 *



quinta-feira, 13 de abril de 2017

XLI - Prostituta - Ethos de uma Alma Invertida



Rastejas ao chão e,
Como uma cadela no cio,
Abre-te à espera de
Um macho que possa cobrir-te

Ata-te às cordas e correntes,
Como uma Andrômeda do Sacrifício,
E deixa-te banhar com a
Espuma branda de Poseidon.

Como uma alma desencarnada,
Segue o curso do Estige,
Perdendo a ti cada vez mais
E fazendo-te um fantasma vivo.

Grande Prostituta que vende
O seu corpo para alimentar o ego.
Grande Prostituta de entranhas
Expostas e corpo surrado.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

XL - Φάντασμα - Ethos de uma Alma Invertida






De teu rosto belo,
Cravejado por olhos celestiais,
Emana a única vida neste
Corpo esculpido em gesso,
Branco como a fronte da Lua.

Quiçá, sejas tu, um mero
Fantasma de uma vida que
Se extinguiu pois tuas
Palavras não são dotadas
Do necessário verbo.

Porventura, do alto de sua
Sensualidade acidental e casual,
Sejas uma pretensa Vênus.
- Vênus Ilegítima, Vênus sem amor -
Do corpo gélido e sem o ego
Dignos de uma Mãe-de-Eros.

Pareces-me mais um
Metamorfo, um memetizador.
Ou um Eco contemporâneo,
Fadada a repetir as falas de outrem.

Ainda sim, Vênus Ilegítima,
Fantasma de Olhos Celestiais,
A volúpia acossa-me como
O Diabo a uma jovem beata.

E eu, como um amante
Dos mortos de meu cemitério,
Devoraria também este fantasma
De lábios róseos, deixando-lhe
As faces enrubescidas como
Se a vida ali corresse
Em veios contínuos, assim
Como de mim jorra a seiva
Bruta - repleta de vida - que
Lhe molha os lábios e os seios.



* Imagem http://www.deviantart.com/art/Ghost-Of-You-101161032 *


XXXIX - Buddah - Ethos de uma Alma Invertida




Passei pelo Ciclo da
Inocência e no Vale
Dos Homens eu a perdi.

Passei pelo Ciclo de Afrodite
E Eros e no desamor
Eu os matei.

Passei pelo Ciclo da
Esperança e no platô
Da frustração eu a afoguei.

Passei pelo Ciclo da
Decepção e no Deserto
da Resiliência eu levantei.

Passei pelo Ciclo da
Vida e no Jardim 
Das Árvores Gêmeas
Eu me deitei...



* Imagem https://i.ytimg.com/vi/OWXkW3EhVYY/maxresdefault.jpg *

terça-feira, 11 de abril de 2017

XXXVIII - Afrodite - Ethos de uma Alma Invertida

Aphrodite by Scarlett-Aimpyh




Afrodite surgiu de
Uma velha concha 
Despida e cercada de
Fascínio por sua beleza.

Afrodite, de seios pequenos
E arredondados; cabelos
Vermelhos a cobrir
A sua concha rosada.
Afrodite, exibida e tímida
Como uma selvagem ninfa.

Afrodite, exuberante Afrodite,
Coberta pela espuma branca.