sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Espelho - Parte IV




Novamente ela...novamente aquela cama, aqueles lençóis e aquela mulher. Ela é poderosa. Talvez mais poderosa do que eu inclusive. Agora eu percebo que ela me chamou durante o meu sono e eu atendi o seu desejo mesmo que inconscientemente. Até então eu não havia percebido quem era a mulher pois só me recordo de sua risada, do cheiro e da textura de sua pele.

A princípio aquele encontro espiritual me incomodou imensamente. Eu não desejei aquilo... não de forma consciente mas, de alguma forma, meu espírito se rebelou contra meu corpo e o deixou para ir atrás daquela forma feminina. Pois quando despertei à noite, resolvi me valer de minha habilidade recém-adquirida de projeção astral para tentar descobrir quem era aquela criatura que, de alguma forma, fez com que eu deixasse meu corpo para que eu me deitasse em sua cama.

Sentei-me no chão frio e fui desligando a minha audição, meu olfato, meu tato e a minha visão até que eu só conseguisse sentir minha respiração lenta e sobrenatural. Para mim, que sou um vampiro, isto é relativamente fácil pois ao mesmo tempo em que as sensações podem ser intensas, posso torná-las quase imperceptíveis. Aos poucos minha essência foi deixando meu corpo imortal feito de mármore e foi atravessando dimensões das quais não pude perceber detalhes, até chegar àquele quarto que eu reconheci como o que eu estivera na noite anterior. Em minha forma imaterial, de uma forma que não posso explicar ou controlar, sou capaz de sentir algumas formas de energia e foi assim que encontrei a mulher com quem estivera naquela cama. Sim, era ela... a bruxa... ela que habitava aquela casa. Um ódio repentino tomou conta de mim, seguido de surpresa, desnorteamento e por fim, uma atração estranha me dominou.

- Maxim, eu sei que você está aqui!
"Como pode ser? Como ela pode saber que eu estou aqui?"
- Sou uma bruxa, queridinho e eu posso sentir qualquer entidade que passe por aqui. Além do mais, você deixa um cheiro muito forte quando está nesta forma, sabia?
"Cheiro? Do que diabos esta louca está falando? Vou deixar esta casa e depois darei um jeito de me encontrar com esta bruxa..."
- Até logo, queridinho! Eu sei que vamos nos encontrar antes do amanhecer! Beijinhos... ou mordidinhas afinal, não sei muito bem do que vocês gostam, além de sangue.
"Não aguento este deboche incontido que você tem, Danielle".

Retornei ao meu corpo, abrindo os olhos e reaguçando todos os meus sentidos um a um lentamente. Tão logo me senti totalmente no controle do meu corpo, saí pela janela mesmo e fui procurar um humano qualquer para me alimentar. Depois de preenchido pelo sangue humano que me faz... "viver", fui atrás daquela família de bruxos que a cada dia me intriga mais. Não sei dizer que caminhos percorri porque simplesmente me deixei ser levado por alguma força oculta.

- Eu disse que iríamos nos encontrar, Maxim.
- E você quer que eu te dê os parabéns?
- Não, não precisa. Faça o que tem para fazer.
- ...eu...eu não sei o que fazer ou dizer. Não sei nem ao menos o motivo da minha vinda.

- Então vamos andar por essa noite enluarada e conversar!
- Você não tem medo de um vampiro? Eu posso simplesmente beber seu sangue e o de seus filhos que, por sinal, não estão com você e estão desprotegidos.
- O que te faz pensar que eu, uma bruxa, teria medo de você? E, para que você saiba, meus filhos são tão poderosos quanto eu. É provável que você deva temê-los mais do que a mim.
- Acho que estou morrendo de medo...
- Eu aprecio bastante essa sua arrogância. Seu defeito é justamente uma de suas qualidades.
- Ora, ora, parece que você me observa bastante, não? - eu pus minha mão em seu rosto, forçando Danielle a olhar para mim - Isso é só admiração ou também é amor?
- O Maxim pretensioso de sempre! - ela riu - Pode me acompanhar até em casa? Tenho medo de ser atacada por um vampiro perigoso.
- Nenhum vampiro neste universo é mais perigoso do que este que acabou de tocar seu rosto.
- Pela deusa, acho que fiquei apavorada agora. Estou tremendo! - ela debochou.
- Se esse tremor não for medo, é simplesmente a alegria que a minha presença provoca.
- Tsc, tsc...esse ego infindável... vamos, entre!

Eu não vou sequer mencionar como era aquela casa, porque isso não é o que de mais importante aconteceu naquela noite. Quando adentrei, esperava a ferocidade que o pequeno anjo mostrou uma vez e a indiferença da jovem bruxa.

- Crianças, Maxim está aqui! - O pequeno anjo foi quem veio primeiro e eu esperava uma reação agressiva mas, para a minha surpresa, ele foi bem receptivo.
- Oi, Maxim! Fica a vontade, viu?
- Garoto, eu já ameacei arrancar a cabeça da sua mãe e você ainda me trata assim?!
- Eu sei que hoje você não vai fazer nada de ruim. Você, apesar de não assumir, gosta de todos nós. Você está aprendendo coisas que não teve a chance de aprender enquanto era humano.
- Você não sabe de nada, garoto! Eu, desde sempre, gostei de sangue e nunca fui capaz de me prender à alguém. Eu sempre gostei de matar, pequeno anjo!
- E isto não mudou, Maxim. O que mudou é que você aprendeu a selecionar suas vítimas e está aprendendo a sentir. Sentimento sempre existe mesmo na mais fria das pessoas... - ele sumiu corredor adentro.
- Hahahah! Eu disse que você deveria temer mais aos meus filhos do que a mim. Eles são especiais.
- Sim, nós somos especiais e é melhor você não fazer mal para a minha mãe, Maxim - Rose apareceu na sala, como se tivesse se materializado - Se fizer...
- Você deve saber que eu não tenho medo de ameaças, certo? Sendo tão especial, você deve saber que eu não teria problemas em fazer o que quiser, inclusive passando por cima de uma rosa tão frágil como você.
- Maxim, uma ameaça sem gargalhada? Agora sim você realmente me pareceu ameaçador. - Danielle me olhou de canto e me pareceu sorrir.

Ficamos conversando durante horas naquela sala de muito bom gosto. Nem sei ao certo do que falávamos porque eu me perdi no momento em que olhei nos olhos de Danielle. Posso afirmar que eles mudaram de um escuro para uma cor belíssima de folhas secas e digo que esta cor lhe caia bem nas íris, pois refletiam bem a sua personalidade. Danielle era exatamente como o outono que ainda carrega a beleza do verão, mas que traz consigo o inicio da frieza e do rigor do inverno.
Tanto quanto me senti encantado por ela, sei que ela se encantou por mim pois por várias vezes ela me olhava com o canto dos olhos, atitude típica de quem se sente intimidado ou desconfortável.

Não sei o que me passou pela cabeça mas eu simplesmente me levantei do sofá e me sentei ao lado de Danielle, que bebia um Martini.

- Aceita um pouco de Martini?
- Aceitaria, se isto não me fizesse mal. Só me é permitido "viver" de sangue. Nada mais me passa pela garganta, além de sangue.
- Imaginei que fosse assim... - ela baixou os olhos. Em um impulso, enlacei-a, fazendo com que se aninhasse ao meu peito.
- O que está fazendo, Maxim?!
- Não tenho a menor idéia. - respondi bem perto de seu ouvido. Eu podia sentir o cheiro de sangue se misturando ao cheiro dos cremes em seu cabelo e em sua pele. A combinação era extremamente tentadora.

Ela pareceu não se incomodar, porque simplesmente ficou ali comigo por muito tempo. Danielle, tomando seu martini e eu me controlando para não colocar meus dentes eu seu pescoço à minha mercê. Enquanto passava meus dedos em seus cabelos, ela adormeceu e sua respiração ficou tão suave, contrastando com a minha, visto que eu ofegava para controlar meus instintos.

Eu sou o Maxim e, por mais que eu pudesse estar aprendendo, ainda faço o que quero quase que instintivamente. Minha boca entreaberta se aproximou de Danielle e, quando meus lábios a tocaram no pescoço, ela balbuciou "não faça isso... não ainda". Quase que ao mesmo tempo, o pequeno anjo se aproximou, encostando-se na porta e olhando-me diretamente nos olhos. Eu simplesmente não pude continuar o que estava prestes a fazer. A voz dela e o olhar dele...era como se eu estivesse amarrado...ou talvez eles fosse um tipo de consciência...

Do mesmo modo como o garoto apareceu, ele desapareceu para dentro de um dos cômodos da casa e eu fiquei sozinho com Danielle novamente. Por um instante, me pareceu que eu me contentei somente em estar ali com ela, sem querer mais e sem querer menos. O dia estava prestes a amanhecer, então eu a levei para a cama que eu havia conhecido. Cobri seu corpo com um lençol leve e ali ela permaneceu, com seus cachos espalhados sobre o travesseiro. Antes que eu pudesse sair pela janela do quarto, vi Rose olhando da porta e eu não gostei nada da expressão em seu rosto. Respondi em silêncio, erguendo uma sombrancelha e sorrindo sarcasticamente. Creio que ela entendeu o meu recado, pois sua expressão se tornou carrancuda e eu deixei a casa atravessando a janela.

Eu sou Maxim! Ninguém atravessa meu caminho pois meus poderes são grandes e meus caninos são afiados. Digo para que todo o mundo ouça: quem atravessar o meu caminho, irá sangrar até que seu corpo se torne um bloco azulado e frio!



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